quarta-feira, 6 de maio de 2009

Terapia nutricional nas doenças do fígado

Nos últimos anos, temos presenciado o crescimento das cifras de obesidade e de suas complicações em todo o mundo. Mas, especialmente alarmante e inédito, é o acometimento do fígado pelo acúmulo de gorduras em suas células, que pode evoluir para uma hepatite gordurosa, uma fibrose e finalmente chegar a uma cirrose hepática. “Essas formas de lesões hepáticas, caracterizadas pelo acúmulo de gordura no fígado, não têm relação com o consumo abusivo de álcool e já representam a lesão hepática mais freqüente nos países ocidentais, com uma prevalência estimada de 10 a 25% das pessoas em geral, 74% dos obesos e, virtualmente, 100% das pessoas que têm diabetes e obesidade associadas”, alerta a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Citen, Centro Integrado de Terapia Nutricional.

A origem destas doenças parece ser uma alteração na ação da insulina, fato que ocorre nos diabéticos tipo 2 e em alguns pacientes obesos. Eles passam a produzir maiores quantidades de insulina para compensar “o defeito do organismo” e com isso passam a estocar mais e mais gorduras nas células do fígado. “Esse quadro é chamado de resistência insulínica e quando ocorre em um paciente não diabético já alerta o médico para a possibilidade dele se tornar diabético. Por outro lado, é possível encontrar pacientes magros com esteatose hepática, pois, apesar de mais rara, a resistência insulínica pode ocorrer em pessoas com peso normal, tornando-as mais suscetíveis ao desenvolvimento de diabetes e de hipertensão arterial”, explica Ellen Paiva. Em crianças e adolescentes, o quadro tem se mostrado ainda mais grave devido a maior e mais precoce exposição do fígado ao acúmulo de gordura.

“A perda de peso ainda é a pedra fundamental no tratamento da esteatose hepática e suas complicações. Com ela, conseguimos reduzir a gordura corporal e também a gordura do fígado. Mas a dieta para alcançar esses objetivos tem mudado muito nos últimos anos, uma vez que as pesquisas científicas mais recentes têm encontrado melhores resultados quando a proporção dos carboidratos se reduz um pouco, cedendo lugar para um pequeno aumento no consumo de gorduras boas ou insaturadas”, explica a endocrinologista.


Vamos explicar essa modificação dietética


(1) Dieta hipocalórica - Para levar à perda de peso qualquer dieta se baseia na redução das calorias da mesma, fazendo com que haja uma defasagem entre o gasto calórico do paciente e a quantidade de calorias da dieta. Para perder peso não interessa o teor da dieta, nem a porcentagem de carboidratos, gorduras e proteínas ou a quantidade de refeições diárias. Interessa comer menos do que se gasta. Entretanto, uma dieta deve emagrecer e alimentar ao mesmo tempo, deve atender às necessidades nutricionais das pessoas, utilizando uma proporção ideal de nutrientes;

(2) Porcentagem dos macronutrientes - Além de levar a perda de peso, uma dieta deve ser balanceada, ou seja, conter carboidratos, proteínas e gorduras numa proporção de 60, 15 e 25%, respectivamente, como advoga as maiores sociedades de nutrição do mundo, incluindo a Associação Americana de Diabetes e de Cardiologia. “O que estamos aprendendo é que nos casos de esteatose, conseguimos melhores resultados, quando reduzimos o teor de carboidratos para cerca de 40% e aumentamos o teor das gorduras para cerca de 45%. A alteração pode parecer contraditória, pois se queremos reduzir o acúmulo de gordura no fígado, pensávamos, anteriormente, que a dieta deveria conter menos gordura. Acontece que o nutriente que mais estimula a produção de insulina é o carboidrato e isso parece acentuar a hiperinsulinemia presente nos pacientes com esteatose, agravando a resistência insulínica”, explica Ellen Paiva. Logo, passamos a reduzir a quantidade de carboidratos nas dietas dos pacientes com esteatose. Isso não significa seguir uma dieta de proteínas, não significa abolir os carboidratos, como ensina o Dr. Atkins. “Pelo contrário, a porcentagem de proteínas continua a mesma, o que fazemos é aumentar o teor de gorduras. Aqui, mais uma informação, a gordura acrescentada não deve ser a saturada ou a hidrogenada. O que fazemos é aumentar a gordura poliinsaturada e monoinsaturada. São óleos vegetais como soja, canola, milho e girassol; azeite, abacate, castanhas e nozes, sementes oleaginosas como a linhaça, peixes de água gelada como salmão, cavala, arenque, truta, atum e bacalhau frescos”, informa a diretora do Citen;

(3) “A perda de peso não deve ser brusca ou muito rápida, pois há relatos de aumento da esteatose em pacientes submetidos à cirurgia do estômago que tiveram perda de peso muito rápida”, recomenda a especialista em Nutrologia. Isso, entretanto, é uma exceção, pois a cirurgia bariátrica costuma causar redução drástica da gordura do fígado, chegando à normalização dos exames que traduzem a lesão hepática;

(4) Nos raros casos de pacientes com esteatose hepática e peso normal, lançamos mão de uma dieta com a mesma composição de nutrientes descrita anteriormente, mas com o valor calórico igual àquele calculado para o paciente em questão. “Será normocalórica e não hipocalórica”, destaca Ellen Paiva.

Aliados do tratamento

Além da dieta, já dispomos de medicamentos que reduzem a resistência insulínica em nível hepático e que devem ser prescritos para esses pacientes, juntamente com a dieta. Somada ao medicamento e à dieta, a atividade física é sabidamente uma grande aliada no tratamento dos casos de esteatose hepática ligados ou não à obesidade, uma vez que a atividade física melhora a ação da insulina, reduzindo a resistência insulínica e o acúmulo de gorduras no fígado.

“Hoje, devemos encarar a esteatose hepática como um dos sinais de diabetes em progressão e como uma oportunidade para corrigir o seu curso clínico, no sentido de evitar o diabetes. Isso pode ser real, quando aliamos dieta apropriada, medicamentos e atividade física”, defende a diretora do Citen.

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