quinta-feira, 11 de maio de 2017

MACROBIOTICA - Os opostos se complementam







A revista vegetarianos de Abril/2010, edição número 42, traz um excelente artigo sobre Macrobiótica. A jornalista Raquel Ribeiro é a autora dessa bela matéria, onde ela fez uma boa pesquisa e conseguiu passar uma mensagem positiva sobre essa excelente opção alimentar. 
Tive oportunidade de colaborar minimamente com a Raquel, conforme destacado abaixo na matéria.


Baseada no principio da dualidade yin-yang, a macrobiótica nos ensina que a vida é movimento.
Raquel Ribeiro

Na década de 70, a macrobiótica era o must em termos de alimentação. Trazida do Japão por Tomio Kikuchi, foi logo apelidada de macrô e adotada por uma geração de brasileiros alternativos. Entre os que mergulharam fundo na onda do arroz integral e frequentaram point’s como O Grão de Arroz – aberto ate hoje! – e o Beco do Mingau, ambos em Salvador, estava Gilberto Gil, um dos grandes divulgadores da macrobiótica. Rio, São Paulo, Porto Alegre e outras cidades também viram abrir restaurantes onde se saboreava feijão azuki, arroz integral, algas, banchá e outros alimentos saudáveis. Hoje, há poucos remanescentes, assim como raros adeptos. Será que, no Brasil, a macrô morreu? Ou ganhou novas roupagens?
Baseada no consumo de cereais integrais, raízes, verduras e legumes, a macrobiótica leva em conta a saúde física e espiritual; e se apóia no principio de que a causa de doenças está na desarmonia entre as energias yin e yang no organismo. Mais do que uma dieta, é uma aplicação da filosofia e medicina orientais. “É uma concepção dialética do Universo Infinito que mostra o caminho para a felicidade através da saúde e restabelece a harmonia da mente, da alma e do corpo, condição indispensável para uma vida plena e feliz”, escreveu Henrique Smith, autor de Macrobiótica Zen para o Brasil. Após ser curado de um câncer avançado, graças à dieta macrobiótica, ele se dedicou a estudar e divulgar sua filosofia.
A macrobiótica não é modismo, nem regime alimentar, nem esoterismo, é um sistema de vida que se baseia no princípio do equilíbrio”, define Elias Mutchnik. Otorrino por formação, ele se tornou discípulo de Smith e hoje atende numa sala na avenida Paulista, onde oferece orientação em macrobiótica. A maioria das pessoas atendidas pelo médico é de casos considerados “perdidos” – gente com câncer, diabetes, artrite e outras doenças que desafiam a medicina acadêmica. O médico, que há três décadas “tirou as viseiras e ampliou o olhar”, acha engraçado quem se espanta com o princípio do alimento como caminho de cura. “Hipócrates já ensinava: torne o alimento seu remédio. Hoje os médicos fazem o juramento de Hipócrates e se esquecem disso”. De fato, basta lembrar do indefectível café-com-leite-pão-branco-e-margarina servido aos convalescentes em hospitais. Quem dera o arroz integral fizesse parte do menu nas instituições hospitalares...
Por que o tal arroz é tão citado, você já deve estar se perguntando. Simples, ele tem energias opostas equilibradas. Na linguagem dos nutricionistas diríamos que é o alimento que tem a proporção potássio/sódio no ponto mais acertado; ou seja, 7 para 1. Na linguagem zen, significa que há equilíbrio energético entre ying e yang.

 

Entender o antiqüíssimo princípio único, ou lei do yin e yang, que rege os opostos e é o fundamento cosmológico do universo, é... fácil! Afinal, a natureza é noite-dia, frio-calor, inverno-verão, negativo-positivo, feminino-masculino, água-fogo, terra-céu, passividade-atividade, yin-yang e traz eternamente esse movimento dos opostos que se complementam. A mesma natureza quase sempre proporciona caminhos para que a gente encontre o equilíbrio. Exemplo: o nordeste brasileiro tem o clima quente-yang e é uma região farta em frutas-ying. Mais um: se você está se sentindo fraco, com a energia em baixa, não é uma saladinha fresca que vai ajudar a mudar seu estado de animo; agora, um inhame cozido, amassado com shoyu e azeite certamente dará um gás adicional
Para a macrobiótica, cada alimento é avaliado de acordo a proporção yin/yang. Há os ingredientes extremos – a carne, super yang; e o açúcar, totalmente yin –, que devem ser evitados. E há aqueles que são mais equilibrados. É o caso dos cereais integrais (arroz, aveia, cevada, milho, centeio, trigo, painço, etc). Todos os outros alimentos (sementes, verduras, leguminosas, algas marinhas, cogumelos, etc) são mais carregados de yin ou de yang, e devem ser ingeridos segundo a necessidade de cada um naquele momento. Como saber a característica da comida? George Osawa, o pai da macrobiótica zen, exemplifica com dois alimentos bem distintos: a melancia e o grão de trigo. A primeira é grande, suculenta, cresce em clima quente e não pode ser armazenada por muito tempo. O segundo é pequeno, seco, suporta o inverno rigoroso, e dura uma eternidade. Percebe-se que a melancia é mais yin do que o trigo. O bacana na macrobiótica é que nada “é”, tudo “está”. Ou seja, o milho é ying em relação ao sal. Mas comparado à berinjela, ele é yang. “A macrobiótica é o aprendizado do bom-senso”, resume Elias, enfatizando que a verdadeira medicina é a profilática, que evita a doença.

Apesar de a medicina acadêmica ainda não ter dado seu veredicto, do ponto de vista nutricional a dieta macrobiótica apresenta inegáveis benefícios para a saúde. Se não for seguida com radicalismo, claro, porque viver somente de arroz é coisa para monge iluminado. O problema é que não foram poucos os casos de adeptos radicais que ficaram anêmicos, e é óbvio que isso repercutiu negativamente. Agora, seguida com o devido cuidado, a macrô proporciona uma alimentação rica em fibras, pobre em calorias, sem gorduras saturadas e que pode ajudar a reduzir os riscos de obesidade, colesterol elevado, hipertensão arterial e diabetes. Ela nos ensina a mastigar muito bem e, por tabela, se torna um eficaz método de emagrecimento. Experimente mastigar cada porção o dobro das vezes habituais e comprove como a informação de “estômago saciado” chegará ao cérebro na hora certa! Ou seja, você naturalmente comerá menos.

Temos de saber diferenciar a dieta macrobiótica para fins terapêuticos e aquela para preservação da saúde. Há alimentos específicos em proporções definidas para efeitos de desintoxicação e revitalização; indica-se maior consumo de cereais e vegetais, com mínimo ou nenhum alimento de origem animal. No segundo caso, há um leque maior de opções alimentares, selecionados de acordo com a região, o clima, as disponibilidades da pessoa, buscando harmonização com o ambiente onde se vive.

Um bom adepto da macrô, que só é bom se não for radical, lê diversos livros de Michio Kushi e Tomio Kikuchi e acaba aprendendo que funcionamos, grosso modo, com cinco órgãos – fígado, pulmões, rins, coração e o chamado baço/pâncreas – acoplados a cinco vísceras – vesícula biliar, intestino grosso, bexiga, intestino delgado e estômago, respectivamente. Aprende também sobre as emoções ligadas a cada órgão e os principais distúrbios que elas podem causar. Assim, começa a se observar e seu autoconhecimento prospera. Com isso ele se torna mais livre. Nenhuma outra linha de alimentação oferece esse universo de conhecimento”, avalia a escritora Sonia Hirsh no site www.soniahirsch.com. Seus livros – em especial os Prato feito e Sem açúcar com afeto – estão recheados de receitas macrôs. Num deles conta a seguinte historia: na China antiga, as pessoas pagavam o médico para se manterem saudáveis. Ele verificava a higiene geral da casa, conferia a cozinha e, se fosse o caso, dava dicas e deixava ervas e poções. Se o paciente adoecia, parava de pagar até ficar bom. Quando morria, o médico tinha de colocar uma lanterna na porta de casa como testemunha de sua negligência. Que diferença da nossa medicina “moderna”...

Sangue novo
Quem procura hoje a macrobiótica? Basicamente, quem quer mudar seu estilo de vida. Acontece que uma das coisas que mais tememos é mudar, mesmo que seja para melhor. Uma coisa é certa: ao mudar a alimentação, mudamos nosso sangue! “O corpo humano decompõe e renova diariamente uma décima parte do sangue. Se comermos e bebermos de maneira adequada, o sangue transformar-se-á inteiramente e ficará renovado em dez dias”, escreveu George Ohsawa em Introdução a Macrobiótica. Nesse livro, defende que esse é o prazo para deter qualquer doença. E nos faz pensar sobre o prazer da gula: “Deixemos de ser robôs alimentados automaticamente pelas máquinas do mundo civilizado. Redescubramos a maior arte de todas, a de cozinhar: a arte de criar pessoas felizes e livres”.
Mas quem abdica hoje dos snaks que povoam as prateleiras de supermercados, dos fast-foods, dos pratos extravagantes de restaurantes especializados nas mais diversas culinárias? Na prática, são as pessoas doentes, muitas vezes desenganadas, que recorrem à macrobiótica; e, segundo centenas de relatos, só tem a agradecer. Apesar de hoje serem raros os seguidores da dieta mais estrita, muita gente adota ou divulga bons bocados desse conhecimento milenar. E adapta esses conhecimentos, pois ao longo das últimas décadas, a macrô foi incorporada ao jeito brasileiro de ser.
Nos anos de 1990, o professor Ari Lopes adotou a dieta vegetariana e, após ler o livro do Dr. Henrique Schmitt, se encantou com a macrobiótica “É imperdível e está repleto de exemplos de cura. Testei algumas dicas e comprovei a eficácia, desde então sou entusiasta. Cada vez que meu filho sente que vai pegar uma gripe, ele me avisa. Como a gripe está ligada ao excesso de yin, dou a ele uma xícara de banchá com 2 ou 3 umeboshi (ameixa salgada); e às vezes uso também a homeopatia. Isso aborta a gripe ou ao menos minimiza os sintomas”. Autor do blog saudecompleta.blogspot.com, o professor não é um seguidor radical: “Sei garimpar, no bufet de saladas de uma churrascaria, alimentos adequados e equilibrados dentro da ótica macrobiótica. Eu me adapto às diferentes situações.” Para ele, a comida macrobiótica pode e deve ser gostosa. E não é preciso ficar neurótico para mastigar 50 vezes cada porção: “Uns alimentos requerem muita mastigação, outros nem tanto. O que a macrobiótica ensina é a fazer a refeição devagar: beber o sólido e comer o líquido. Isso significa que os líquidos devem ser bebidos com delicadeza, circulando pela boca. Já os sólidos devem ser mastigados até o ponto de pasta, pois nosso estômago não tem dentes e a boa mastigação tem uma participação fundamental na digestão dos alimentos”.
A culinarista Kashi Dyani cresceu num ambiente cem por cento macrô. “Minha mãe escondia a ameixa umeboshi (que está longe de ser considerada uma guloseima!), se não eu e minha irmã acabávamos com o pote.” Hoje Kashi é adepta da comida viva e tem um restaurante vegano, mas não esquece algumas receitas, como o mingau de arroz, bem yang, e adotou os cereais e as algas no seu dia-a-dia. Para ela, “a macrobiótica dá um embasamento para toda a vida, traz a compreensão de que tudo está relacionado”. Como ela, muitos outros que seguiram essa filosofia nas décadas de 70 e 80 incorporam seus preceitos básicos: ligam-se na proporção sódio-potássio e guarnecem a despensa com arroz integral, missô, shoyu, gersal e outros importantes ingredientes de uma alimentação equilibrada. É o caso de Vig de Oliveira, que nos anos de 1980 morava perto da cachoeira do Escorrega, cantinho hippie da região de Visconde de Mauá. “Nasci na roça. Meus pais sempre plantaram e em toda casa que morei tinha uma horta. Nesse tempo, a gente só comia o que era preparado em casa. Curiosa que sou, fui perguntando e aprendendo. Quando alguém vinha com o preconceito de que comida integral era coisa de hippie, eu dizia ‘mas isso é o que nossos avós comiam’, arroz, feijão, tudo integral!”. Num empório japonês em Resende, cidade mais próxima, Vig descobriu o gergelim, o shoyu e a bardana. Por sete anos ela e a família seguiram a macrobiótica, até que naturalmente outros hábitos alimentares foram incorporados. “Tenho sangue índio, sou muito indolente, não quero nada que me tire a liberdade. Além disso, não vivo naquela cultura japonesa, não dá para seguir todos aqueles ensinamentos”, explica. Nem por isso ela desaprendeu o que era bom. Ao contrário, gosta de passar adiante receitinhas, como a pasta de inhame para tirar febre: “Rale o inhame cru, coloque nas solas dos pés e prenda com uma gaze. Para a cólica menstrual, tome banchá (1/2 copo com um pouco de sal marinho). As dicas estão no livro de primeiros socorros, Onde não há medico, do dr. Werner”.
A releitura da macrô, adaptada ao estilo de vida atual, de certa forma segue seu próprio princípio: ser uma medicina filosófica, paradoxal e dialética. Afinal, nada é cem por cento yang ou cem por cento yin; nem totalmente bom ou mau. O próprio símbolo da macrobiótica traz dinamismo ao apresentar um círculo dividido por uma onda, sendo metade negra (yin), metade branca (yang), cada metade com um pequeno círculo da cor oposta, mostrando a presença de um no outro. Isso representa o equilíbrio das forças positivas e negativas do universo. “Macrobiótica é matemática, é química: yin e yang, ácido e alcalino, sódio e potássio. O nosso equilíbrio está em saber conviver com essas dualidades, e a macrobiótica nos ensina a trilharmos o caminho do equilíbrio nutricional”, resume Ari Lopes.
Há quase trinta anos, George Osawa já avisava: “A macrobiótica não é uma serie rígida de preceitos; os teoremas do ying e yang não são leis impostas por um mestre, mas a simples expressão verbal das ocorrências naturais e instintivas. Se decidirmos não comer certo alimento não é porque somos proibidos, mas porque utilizamos nosso discernimento e escolhemos outros alimentos que nos permitirão obter saúde física e mental. Desenvolva seu próprio julgamento: observe os efeitos de cada alimento em seu corpo e descubra do que você precisa.”
Vida longa
A palavra macrobiótica vem do grego, macro = grande e bio = vida, e traduz o principio de que quem a segue tem vida longa. É um conhecimento de mais de cinco mil anos e aparece em textos de filósofos gregos, como Hipócrates. No século XVIII, virou livro, Macrobiótica, ou a Arte de prolongar a Vida, de Christoph Von Hufeland, professor de medicina alemão. Ali são prescritas recomendações semelhantes às da “macrobiótica moderna”. Sagen Ishisuka (1850 a 1910), médico japonês que se curou de uma doença de rins adotando um regime alimentar baseado em cereais integrais e vegetais, fundou a primeira organização macrobiótica. Ele sistematizou sabedorias da medicina tradicional chinesa e da japonesa, baseando-se no princípio do yin e yang, e proclamou que a má nutrição era a origem de todos os problemas de saúde – e que eles podiam ser corrigidos com uma alimentação equilibrada. O japonês Sakurazawa Nyoiti, conhecido no Ocidente como George Ohsawa (1893-1966) também encontrou a própria cura na alimentação macrobiótica e deu continuidade ao trabalho de Ishizuka. Após a Primeira Guerra Mundial, passou a difundir essa filosofia de vida na Europa e nos Estados Unidos.
Osawa prescrevia de acordo com a condição de cada pessoa, pois considerava que praticar a macrobiótica era comer de acordo com as necessidades individuais – e elas estão em constante mutação. Um dos alunos de Ohsawa, o biólogo Tomio Kikuchi, trouxe a macrobiótica para o Brasil em 1955, e fundou o Centro Internacional de Educação Vitalícia (CIEV), do qual ainda é presidente aos 84 anos de idade. O espaço, na Liberdade, na cidade de São Paulo, oferece cursos diários e gratuitos de culinária e mantém um restaurante. O prof. Kikuchi vem buscando atualizar conceitos, questionando, por exemplo a noção do equilíbrio, pois sugere uma situação parada, enquanto a vida é movimento. Prefere, pois, usar o termo reequilíbrio e falar numa “terceira força”, o rang. Exemplo: nos relacionamento homem/mulher, a terceira força é a chegada do filho, que vai gerar o movimento.
Nos anos de 1970 entrou em cena Flavio Zanata, seguido por Dr. Henrique Smith. Outro discípulo de Oshawa, Michio Kushi, desembarcou nos Estados Unidos e lá difundiu a chamada Macrobiótica Padrão, que propõe uma refeição constituída de sopa, cereais integrais, leguminosas, legumes, vegetais e pequena porção de algas. Peixe pode ser consumido até três vezes por semana e a carne vermelha é tolerável (até três refeições por mês). Em outras interpretações da doutrina original, o vegetarianismo é regra. Em todo caso alguns preceitos básicos da macrô são os mesmos:
  1. A saúde e a harmonia do corpo e do espírito dependem do equilíbrio entre yin e yang. Os alimentos possuem maior energia yin ou yang, e devemos aprender a consumi-los de acordo com nosso perfil (idade, sexo, tipo físico, hábitos etc) e com os fatores externos (clima, estresse, momento da vida). Não existe uma dieta igual para todos, mas sim uma abordagem flexível e sensata.
  2. Temos quatro atividades vitais: alimentação, respiração, movimento e pensamento. Devemos conhecê-las, relacioná-las entre si e ter controle responsável sobre elas para enfrentar os problemas.
  3. A doença – do corpo, emocional e do espírito – nos avisa que as coisas não estão funcionando bem. Ela representa oportunidade de cura: diante de uma ameaça efetiva encontramos estímulo para mudar.
  4. Algumas orientações: consumir alimentos orgânicos; abster-se de bebidas alcoólicas, fumo, refrigerantes e enlatados; tomar água ou chás com moderação; evitar fritura e laticínios; praticar atividade física; curtir os momentos de lazer para combater tensões e desgastes do cotidiano. O açúcar branco é absolutamente proibido por seus malefícios.
  5. A dieta é semelhante à do camponês tradicional, consistindo em 50% de cereais integrais, 25% de vegetais locais sazonais, cozidos de formas diversas, 10% de proteínas extraídas de peixe local ou de produtos derivados de feijão e soja (como tofú ou tempeh), 5% de algas, 5% de sopas, incluindo misso (pasta de soja fermentada), 5% de sobremesas e chás.
(Box) O sabor da macrô
O restaurante e entreposto Metamorfose, no centro do Rio de Janeiro, é uma referência para os seguidores e simpatizantes da macrobiótica. Fundado em 1985 por alunos do prof. Tomio Kikuchi, recebe um público eclético que pode desfrutar de dois cardápios. Ambos servem alimentos de verdade: cereais, verduras, legumes, raízes. “Um segue a característica original, com pratos mais tradicionais; o outro, que chamamos especial, tem variações: mais alimentos crus, frutas e, a cada duas semanas, servimos peixe. Laticínios, porém, não entram em nenhum dos cardápios”, explica Pedro Ribeiro, sócio do restaurante. Ele contesta a crítica de que comida macrobiótica é sem gosto: “Isso é sinal de desconhecimento. Justamente o que se busca é extrair o máximo do sabor de cada alimento, pelo corte, pelo fogo, pelo sal e pela pressão; essa é a arte fundamental”. Segundo ele, hoje há uma perda generalizada da capacidade de sentir o sabor dos alimentos por uma grande “mascaração”: alimentos refinados, açucarados, condimentados e enlatados. “É como se as pessoas estivessem anestesiadas, precisando mais e mais de maquiagens para sentir prazer no ato de comer”.
Questionado sobre a morte da macrobiótica, Pedro também contesta: “Isso não tem como acontecer; talvez apenas o estilo japonês, que termina com a geração de Tomio Kikuchi e Michio Kushi. Agora, esquecer como nossos avós e bisavós se alimentavam? Isso não.” De fato, se hoje a lista de restaurantes exclusivamente macrobióticos diminuiu, a quantidade de casas que servem comida vegetariana ou natural aumentou bastante. E nesses lugares é fácil se alimentar conforme os preceitos da macrô; afinal, ela inspirou toda a onda da alimentação saudável.
A experiência do Grão de Arroz, aberto em 1974 por Luis XXXXXXXXXXXXXXX, é semelhante. “Naquela época a clientela era toda alternativa, hoje é composta de médicos, professores, estudantes, empresários, funcionários públicos, aposentados, enfim gente diversificada”, conta Vera Lucia Martins, diretora da empresa. Ela ressalta que a linha sempre foi macrô, porém sem radicalismo. “Isso é má interpretação de quem confundiu a filosofia com a dieta; que é importante quando se precisa de um tratamento para cura, mas a macrobiótica é livre: permite que você faça seu próprio caminho.” Essa maleabilidade culinária pode ser vista (e provada!) num prato típico como o Vatapá: todos os ingredientes estão presentes, mas com redução de azeite de dendê, camarão e pimenta. O prato também pode ser servido sem camarão e/ou sem pimenta (essa eh substituída pelo gengibre). Outra alternativa é usar a abóbora, em vez da farinha de trigo ou do miolo de pão. Em suma, não existe macrobiótica internacional ou doutrina universal: o princípio filosófico que orientou George Ohsawa é regido pelos aspectos Yin-Yang da energia da natureza que sugerem adaptabilidade, interatividade e complementaridade.

(Box) Menos é mais
Desmistificada o radicalismo da macrobiótica, concluímos que essa dieta pode ser seguida por quase todo mundo. Quem fica de fora? Bom, aquele que acha o máximo dar prejuízo em rodízio de pizza ou não pode ver um bufê sem atacar absolutamente todos os pratos. A todos os outros, fica a sugestão: prepare uma mesa com apenas dois ou três pratos, modere nos condimentos, sirva uma porção modesta de cada um e saboreei cada garfada. Espero que conclua que, muitas vezes, less is more.


(Box) Salvos pela guerra
Vítima de um ferrenho bloqueio durante a Primeira Guerra Mundial, a Dinamarca se viu seriamente ameaçada pela escassez de alimentos e pela desnutrição. Mikkel Hinhede, superintendente do Instituto de Pesquisa Alimentar, foi então nomeado conselheiro do governo dinamarquês. Hinhede não só resolveu o problema como reverteu completamente a situação. Nos anos anteriores à guerra, a Dinamarca importava grãos a preço de banana, e os fazendeiros dinamarqueses criavam porcos, vacas e galinhas, e exportavam ovos e manteiga para a Inglaterra. Os próprios dinamarqueses eram grandes comedores de carne suína e ovos. Depois do bloqueio, entretanto, o suprimento de grãos foi cortado: e havia mais de cinco milhões de animais domésticos e 3,5 milhões de pessoas para alimentar! Imediatamente, Hinhade ordenou que quatro quintos dos porcos e um quinto das vacas fossem sacrificados. Desse modo, mais grãos estariam disponíveis para o consumo humano. Além disso, o consumo de carne de porco foi drasticamente reduzido. Hinhede também impôs limites à produção de bebidas alcoólicas, pois os grãos nelas utilizados teriam melhor serventia na feitura de um pão tradicional, o “kleiebrot”. Assim, os dinamarqueses passaram a ingerir mais cereais, vegetais, verduras, feijões e frutas; e muito menos carnes e laticínios. De outubro de 1917 a outubro de 1918, o período mais duro da guerra, a Dinamarca tornou-se a nação mais saudável da Europa. Sob uma dieta similar à macrobiótica, a incidência de câncer caiu aproximadamente 60% e a taxa de mortalidade diminuiu mais de 40%. Terminado o conflito, os dinamarqueses retornaram à dieta original e os índices de mortalidade voltaram aos do pré-guerra.
Fonte: Mikkel Hinhede, “The Effects of Food Restriction During War on Mortality in Copenhagen”.

(Box) Receitas do Restaurante Grão de Arroz


Risoli de inhame com molho de araruta

Ingredientes
- 200 gramas de inhame
- uma pitada de sal marinho
- recheio (tofu, azeitona picada, cenoura temperada, ricota, etc.)
- galhos de salsa para decorar

Foram utilizados inhame roxo e branco.

Molho de araruta. Dissolver duas colheres de sopa de araruta em um copo de água, temperar com uma pitada de sal marinho, levar ao fogo para cozinhar até ficar transparente.

Modo de fazer. Cozinhar o inhame com sal e logo em seguida amassar até ficar bem homogêneo.

Utilizar um plástico fino molhado, esticado sobre a mesa para modelar o risoli. Colocar sobre o plástico, um galho de salsa (decorativo). Sobre o galho de salsa espalhar uma porção de mais ou menos 50 gramas do inhame cozido. Colocar o recheio e com a ajuda do plástico modelar o risoli em forma de pastel. Com uma colher espalhar o molho de araruta. Servir quente.

Pudim de tapioca

Ingredientes
2 xícaras de tapioca seca
1 litro de leite de coco fresco
2 xícaras de ameixa cozida
1/2 xícara de açúcar mascavo
Uma pitada de sal marinho

Modo de fazer
Juntar a tapioca ao leite de coco e sal, levar ao fogo para cozinhar até ficar transparente e cremoso. Em seguida, colocar em um recipiente de vidro e cobrir com a calda de ameixa.

Calda de ameixa
Cozinhar a ameixa com açúcar mascavo até amolecer. Depois de frio bater no liquidificar até ganhar consistência, virando uma calda cremosa.

Levar a geladeira. Servir gelado.


Para saber mais
Introdução a Macrobiótica, George Ohsawa
Macrobiótica Zen para o Brasil, Dr. Henrique Schmitt
Centro Internacional de Educação Vitalícia (CIEV): (11) 3242-9738
Dr.Elias Mutchnik: (011) 3288-4364
Grão de Arroz, restaurante em Salvador - http://graodearrozrestaurante.blogspot.com
Restaurante Metamorfose, no Rio - (21) 2262-6306 http://www.restaurantemetamorfose.com.br
George Oshawa Macrobiotic Foundation: http://www.ohsawamacrobiotics.com/
(Frases em destaque)
Nós vivemos de um terço do que comemos. Do resto, vivem os médicos”.Provérbio chinês
A diferença entre a medicina convencional e a macrobiótica é que a primeira enxerga a doença e procura tratá-la com remédios e drogas, enquanto a segunda vê o doente e o trata com alimentação”. Henrique Smith
Nossa medicina é a de Hipócrates, o pai da medicina. Ele deixou uma mensagem muito importante: fazei do alimento o vosso remédio.”
Michio Kuchi
Nos alimentamos pela boca, pelos olhos, ouvidos, nariz e... o umbigo (a boca durante a gestação). Por meio do controle dessas ‘bocas’ podemos direcionar nosso destino, ampliando a longevidade e nossa percepção da existência na Terra”.
“Precisamos de uma alimentação psicossomática. A gastronômica não vai funcionar”.
Michio Kuchi
O ato da alimentação é vital e sagrado. Toda refeição deveria ser ingerida com prazeroso agradecimento e com o máximo de calma”.George Ohsawa
 “O mundo pode ser mudado. Você pode mudar. Tudo pode mudar. Desde que queira, aqui e agora. A mutação é indispensável para a adaptabilidade. Viver bem é a maior ambição. Para tal, a adaptabilidade é imprescindível.”
Luís Antonio Motta Cunha – Lula


(legenda) Enquanto para os nutricionistas importa o valor nutritivo dos alimentos, a macrobiótica valoriza seu poder energético, baseado no equilíbrio entre Yin e Yang, duas forças antagônicas que se integram por serem complementares.


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Ariovaldo Lopes da Silva – Mestre em Ciências Contábeis, Economista, Professor universitário por 20 anos e executivo de empresas por 40 anos, sendo último cargos ocupados com carteira assinada de Controller para America Latina na Henkel e Diretor Financeiro na Mauser. Atualmente é Palestrante, Consultor e Empresário. Possui mais de 200 artigos sobre Controladoria, Finanças e Gestão de Empresas.  arilopes@folha.com.br