quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Ovos de jacarés são fonte de alimento durante a seca



A taxa de predação de ovos das espécies Melanosuchus niger (jacaré-açu) e Caiman crocodilus (jacaretinga) chamou a atenção dos pesquisadores do Programa de Pesquisa em Conservação e Manejo de Jacarés e do Projeto Aquavert (desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá - IDSM - com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Ambiental). De 559 ninhos avaliados em 145 corpos hídricos, a taxa de predação chegou a 30,8%. "A coleta de dados sobre as duas espécies é anual, mas dessa vez a ocorrência da predação dos ninhos nos fez escrever sobre o assunto", explica Kelly Torralvo, uma das pesquisadoras envolvidas no estudo.

Os ninhos analisados se encontraram em 145 corpos de água localizados na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. "Precisávamos identificar os predadores e avaliar o impacto disso no desenvolvimento das espécies", conta Kelly. "Não temos um trabalho de acompanhamento desses ovos até a eclosão, porém a predação é um processo ecológico natural", avalia. "Os ovos de jacarés são fonte de alimento para outras espécies, o que se insere na cadeia trófica no período da seca", completa a bióloga.
Além da predação por outras espécies, os ninhos de jacarés também são alvos de coleta por moradores locais. "Não temos dados de comercialização de ovos na reserva, então quando a predação humana é feita para consumo de subsistência, podemos encarar que o homem está integrado na cadeia do ecossistema", analisa. Mesmo assim é importante diminuir a predação feita pelo homem - e o trabalho dos pesquisadores junto às comunidades tem esse objetivo. "Nós incluímos os comunitários nas pesquisas, tanto na proteção dos ninhos quanto nas contagens populacionais - é um monitoramento comunitário", explica Kelly.

Rotina
Durante a coleta de dados (entre outubro e dezembro), o grupo de pesquisadores e biólogos do Instituto contou com o apoio de assistentes de campo - os próprios moradores da Reserva. Os ninhos eram avistados pelo grupo e, em cada um deles, eram coletadas medidas de altura e largura, coordenadas geográficas, características do micro hábitat, e informação sobre predação e presença (ou ausência) da fêmea nas proximidades. Kelly e Robinson Botero-Arias foram os pesquisadores responsáveis pelo tratamento, interpretação e divulgação dos dados.

A predação era identificada através de cascas de ovos e pelas folhas espalhadas (que antes formavam um monte para proteção dos ovos). "Cada vestígio é atribuído a um predador - e na maioria das vezes quem identificava o predador eram os assistentes", relembra Kelly. "Por exemplo: no caso de predação por onça o ninho estava pisoteado e muitas vezes conseguíamos ver as pegadas; por macacos, as cascas seguiam espalhadas em um raio maior, além do ninho. Já no caso de jacuraru encontrávamos menos bagunça; e no caso do homem os vestígios eram evidentes: ovos inteiros ausentes, ninho aberto e, em alguns lugares, restos de fogueiras pela área", ensina a bióloga.

Impactos e novas análises
O próximo passo na interpretação dos eventos de predação é a instalação de armadilhas fotográficas. "Assim conseguiremos firmar esses dados, pois as imagens fornecem provas do predador e de quantas vezes ele visitou aquele determinado ninho", explica Kelly. "E essa comprovação acontecerá ainda este ano", completa.

Texto: Lilian Wiczneski