sexta-feira, 24 de julho de 2009

BRASIL DEVE PRODUZIR VACINA CONTRA GRIPE A

As ações para prevenir e tratar os pacientes vítimas da Gripe A (H1N1) entraram no debate da entrevista concedida nesta quinta-feira (23) pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, para âncoras de emissoras de rádio de todo País. Durante o programa Bom Dia Ministro, nos estúdios da EBC Serviços, Temporão reforçou que o Brasil receberá mais 800 mil tratamentos, que serão distribuídos aos estados e incorporados ao estoque de nove milhões de tratamentos disponíveis no momento. Leia abaixo os principais trechos.

Gripe A (H1N1)
"A Organização Mundial da Saúde (OMS) chama atenção de que, em epidemias anteriores, onde o vírus levava seis meses para se espalhar pelo mundo, nesse caso levou apenas seis semanas. É natural que isso traga dúvidas, interrogações, até porque a ciência, nesse momento, não pode responder a todas as perguntas. Ainda é muito cedo, tem muita gente competente no mundo inteiro estudando, se debruçando sobre o comportamento desse vírus. Agora, é preciso chamar a atenção de que todos os anos, todos os países e o Brasil, na época do inverno, enfrentam surtos da influenza sazonal, influenza comum. Essa que todos os anos o Ministério da Saúde faz a campanha de vacinação dos idosos. Nesse ano, por exemplo, vacinamos 18 milhões de idosos. No ano passado, em julho de 2008, 4.500 pessoas morreram, em um único mês, de complicações da gripe comum. Os documentos oficiais da OMS alertam que, embora seja uma nova doença, que traz questionamentos e insegurança, o comportamento dessa doença, na prática, tem semelhanças muito grandes com o da gripe comum. Seja do ponto de vista dos sinais, dos sintomas da letalidade, do tratamento e das medidas de prevenção. Infelizmente, estão acontecendo mortes, mas isso já era esperado pelas autoridades da mesma maneira que a gripe comum. Esse é um momento, onde a imprensa, a TV e os jornais têm grande responsabilidade de transmitir informação, esclarecimento, de orientação da população, para que não se crie um clima de insegurança, ou de medo, que não são bons conselheiros."

Grupos de risco
"Em geral, são crianças muito pequenas, idosos, mulheres grávidas, pessoas que têm principalmente doenças como hipertensão, diabetes, doenças pulmonares crônicas, bronquite, enfisema, asma. São também pacientes que têm a imunidade do organismo reduzida, como o câncer, por causa da quimioterapia, ou aqueles que fizeram transplante de órgãos e estão tomando medicamentos para evitar a rejeição. Doenças como artrite, artrose, osteoporose, em princípio, não se enquadrariam nessa categoria. Todo o quadro que implique redução da imunidade do organismo estaria incluído no quadro de risco, mas isso só pode ser feito através da realização de exames, que vão confirmar se há especificamente um quadro de redução de imunidade. A avaliação tem que ser sempre do médico assistente. É a partir daí que começamos a ministrar tratamento específico."

Vacina
"Não existe vacina, ainda.. O processo de produção de uma vacina demora entre quatro e seis meses, pelo menos. E primeiro: ela tem que ser testada em pessoas, porque podem surgir efeitos colaterais inesperados. Ela pode não proteger adequadamente. Então, temos que ter segurança total de que a nova vacina vai proteger e não causar mais complicações. Qual é a expectativa? Entre outubro e novembro, é provável que existam algumas vacinas sendo utilizadas pelos países do Hemisfério Norte, porque lá estará começando o inverno. Aqui, daqui a pouco chega o verão. Estamos em contato com todos os laboratórios, que estão trabalhando para ter uma vacina, fazendo pesquisa de preço e ofertas de doses. O Instituto Butantan, em São Paulo, que é o que produz a vacina da campanha do idoso todo o ano, tem capacidade industrial e tecnologia, será um dos laboratórios a produzir. O Brasil terá também essa vacina para proteger a população no ano que vem."

Ações de prevenção
"Estamos há 90 dias trabalhando, 24 horas por dia, orientando, esclarecendo. Se eu fizer uma contabilidade da quantidade de páginas impressas, minutos na TV e no Rádio, na Internet e orientação, discussão e debate, talvez seja uma das doenças mais discutidas dos últimos 50 anos no Brasil. Então o governo brasileiro, desde o primeiro momento, poucas horas depois de a OMS ter declarado pandemia, já estava reunido em Brasília, no grupo executivo interministerial. Já tínhamos uma estratégia de comunicação, que tinha sido elaborada na época da pandemia de gripe aviária, que não aconteceu. Criou-se um alarde fantástico no mundo inteiro e simplesmente o vírus desapareceu, não circulou mais. Mas a mesma estratégia foi importante porque nos permitiu estruturar uma rede de laboratórios, uma tática de vigilância que está presente em todos os estados. Equipar e preparar os hospitais, treinar centenas de médicos e profissionais de saúde, e ter uma estratégia de comunicação."

Tratamento da doença
"Já distribuímos dez mil tratamentos desde o início da doença. Só a partir do 80º dia é que declaramos que o vírus circulava livremente no Brasil, até então nós tínhamos um número pequeno de casos e um número muito pequeno de óbitos. E no começo, que eu chamo de fase um, foi o período de contenção de impedir que o vírus circulasse no Brasil e que obteve grande sucesso. Afinal de contas, durante 80 dias impedimos essa circulação, todos os doentes foram tratados. Então, na realidade, faltou essa informação ai. Esses 50 mil tratamentos são 50 mil que estamos distribuindo agora, porque já utilizamos dez mil tratamentos durante essa primeira etapa."

Sul e Sudeste
"Nossa grande preocupação nesse momento é evidentemente com a situação dos estados do Sul, onde as baixas temperaturas durante essa época do ano facilitam muito a propagação das doenças respiratórias, entre elas a dessa nova virose. Temos também São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná. A situação nos estados da região Centro-Oeste, Nordeste e Norte é bastante distinta, até pelas especifidades climáticas que ajudam um pouco. Isso não quer dizer que a doença não possa se espalhar nessas regiões e contaminar um número grande de pessoas. A orientação do Ministério é sempre, bom senso e que todas as medidas sejam tomadas de acordo com as autoridades sanitárias locais"

Os perigos da automedicação
"O governo federal comprou em 2006 nove toneladas do princípio ativo (Tamiflu), que ficaram estocadas, e será transformado em produto final. Compramos essa matéria-prima do laboratório que detém a patente desse medicamento. Além disso, adquirimos uma série de medicamentos prontos. Em nenhum momento houve uma solicitação formal ou uma determinação do Ministério da Saúde de que o laboratório retirasse o produto das farmácias, isso não aconteceu. Entretanto do ponto de vista prático, imagino que há uma gigantesca demanda mundial por esse medicamento e o laboratório está tentando atender todos os pedidos. O remédio não se encontra hoje nas farmácias. Esse é um aspecto. O outro é que o fato de o medicamento não estar disponível nas farmácias é extremamente positivo. Numa situação como essa, mesmo que exigíssemos a prescrição por um médico, a cultura da automedicação é muito forte no Brasil. Teríamos pessoas tomando remédio sem indicação e talvez ficando gravemente doentes, por efeitos colaterais. E o mais grave é que quanto mais você coloca o vírus em contato com o medicamento, maior a probabilidade de que ele sofra uma mutação e apresente resistência ao remédio.