Câncer, Metabolismo e Mitocôndrias: uma nova abordagem proposta pela Medicina Ortomolecular
Um protocolo publicado por Ilyes Baghli e pesquisadores internacionais propõe olhar o câncer também sob a perspectiva metabólica e mitocondrial
O câncer continua sendo um dos maiores desafios da medicina. Apesar dos enormes avanços obtidos com cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo, pesquisadores continuam investigando novas formas de compreender por que determinadas células se tornam malignas, como ocorre a metástase e por que alguns tumores desenvolvem resistência aos tratamentos.
Uma dessas linhas de investigação coloca as mitocôndrias e o metabolismo celular no centro da discussão.
Em setembro de 2024, o Journal of Orthomolecular Medicine publicou o artigo:
“Targeting the Mitochondrial-Stem Cell Connection in Cancer Treatment: A Hybrid Orthomolecular Protocol”
O primeiro autor é o médico Ilyes Baghli, ligado à International Society for Orthomolecular Medicine (ISOM), acompanhado por um grupo internacional de pesquisadores e médicos, entre eles William Makis, Paul E. Marik, Michael J. Gonzalez, William B. Grant, Dominic P. D’Agostino e Pierrick Martinez.
O artigo foi publicado no Volume 39, Número 3, do Journal of Orthomolecular Medicine. (ISOM)
Uma visão diferente sobre a origem do câncer
O modelo predominante da oncologia moderna considera que alterações genéticas e epigenéticas desempenham papel fundamental no desenvolvimento do câncer.
Baghli e seus colaboradores exploram uma hipótese complementar denominada Mitochondrial–Stem Cell Connection (MSCC) — conexão mitocôndria–célula-tronco.
Segundo essa hipótese, alterações persistentes na produção de energia pelas mitocôndrias, particularmente na chamada fosforilação oxidativa (OxPhos), poderiam contribuir para transformar determinadas células-tronco em células-tronco cancerígenas.
Essas células teriam participação importante no crescimento tumoral, resistência terapêutica, recidiva e formação de metástases.
A hipótese MSCC havia sido detalhada anteriormente, em abril de 2024, por Pierrick Martinez, Ilyes Baghli, Géraud Gourjon e Thomas N. Seyfried em artigo publicado na revista científica Metabolites. (MDPI)
O metabolismo das células cancerígenas
Um dos pontos mais interessantes dessa discussão é a forma como as células tumorais obtêm energia.
Muitas células cancerígenas apresentam metabolismo diferente das células normais, com maior dependência da glicólise e alterações importantes no metabolismo da glicose e da glutamina.
Esse fenômeno se relaciona historicamente às observações de Otto Warburg, vencedor do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1931, cujo trabalho sobre respiração celular ajudou a estabelecer as bases para estudos posteriores do metabolismo tumoral.
A pesquisa moderna mostrou, entretanto, que o metabolismo do câncer é muito mais complexo do que simplesmente afirmar que “o câncer se alimenta de açúcar”.
Tumores diferentes podem utilizar diferentes substratos energéticos e modificar seu metabolismo conforme o ambiente e o tratamento.
O protocolo híbrido proposto pelos pesquisadores
Depois de revisar estudos de biologia molecular, farmacologia, modelos celulares, animais e determinadas observações clínicas, Baghli e colaboradores propõem um protocolo experimental combinando diferentes estratégias.
O objetivo teórico é atuar simultaneamente sobre metabolismo tumoral, função mitocondrial, células-tronco cancerígenas e mecanismos relacionados à progressão e metástase.
Entre as categorias investigadas pelos autores aparecem:
- vitamina C;
- vitamina D;
- outras substâncias nutricionais e ortomoleculares;
- intervenções alimentares e metabólicas;
- medicamentos reposicionados;
- estratégias destinadas a interferir no metabolismo de glicose e glutamina;
- intervenções complementares relacionadas ao estilo de vida.
Os autores argumentam que a combinação poderia produzir efeitos aditivos ou sinérgicos. (ISOM)
Um ponto fundamental: proposta não significa tratamento comprovado
Aqui precisamos fazer uma distinção extremamente importante.
O artigo de Baghli e colaboradores não é um grande ensaio clínico randomizado demonstrando que esse protocolo cura o câncer.
Ele é classificado pelo próprio Journal of Orthomolecular Medicine como Educational Article e propõe um protocolo construído a partir da literatura disponível. (ISOM)
Os próprios autores terminam defendendo a realização de estudos comparativos em animais e seres humanos para avaliar a eficácia e segurança do protocolo frente aos tratamentos convencionais. (ISOM)
Portanto, não seria cientificamente correto transformar uma hipótese promissora em uma terapia comprovada.
Mas também seria inadequado ignorar a pesquisa sobre metabolismo tumoral simplesmente por ela propor caminhos diferentes dos tratamentos tradicionais.
A pergunta científica adequada é:
essas estratégias podem ser testadas de maneira rigorosa e eventualmente complementar os tratamentos existentes?
E os casos de remissão?
Existe outro trabalho envolvendo Ilyes Baghli que merece atenção especial.
Em 2025, William Makis, Ilyes Baghli e Pierrick Martinez publicaram na revista Case Reports in Oncology uma série envolvendo três pacientes com câncer metastático que haviam utilizado fenbendazol, medicamento antiparasitário veterinário, juntamente com diferentes contextos terapêuticos.
O artigo despertou enorme interesse porque descrevia evoluções clínicas extraordinárias.
Porém, existe uma informação posterior indispensável para qualquer discussão responsável: o artigo foi retratado pela revista em janeiro de 2026. Atualmente, tanto a página da editora quanto o PubMed identificam claramente o trabalho como retratado. (PubMed)
Consequentemente, ele não deve ser apresentado como evidência clínica validada de eficácia do fenbendazol contra o câncer.
Além disso, mesmo antes da retratação, três casos isolados não seriam suficientes para demonstrar causalidade.
Esse episódio mostra exatamente por que relatos extraordinários precisam ser investigados por estudos clínicos adequadamente controlados.
Medicina metabólica do câncer merece investigação
Talvez esse seja o aspecto mais relevante dessa discussão.
A relação entre câncer, metabolismo, mitocôndrias e células-tronco cancerígenas constitui uma área real de investigação científica.
Isso não significa que todas as terapias propostas dentro da chamada medicina metabólica ou ortomolecular estejam comprovadas.
São questões diferentes.
A ciência avança justamente quando hipóteses plausíveis são transformadas em experimentos capazes de confirmá-las ou refutá-las.
O trabalho de Martinez, Baghli, Gourjon e Seyfried publicado em Metabolites apresenta a hipótese MSCC como um modelo para explicar aspectos da carcinogênese, enquanto o artigo posterior liderado por Baghli tenta transformar esse modelo em uma proposta terapêutica. (MDPI)
O que podemos concluir?
O artigo liderado por Ilyes Baghli é interessante porque reúne diferentes linhas de investigação sobre metabolismo tumoral e propõe abordá-las conjuntamente.
Mas é fundamental separar três níveis de informação:
Hipótese científica: alterações mitocondriais e metabólicas podem desempenhar papel importante na formação e manutenção de determinados cânceres.
Evidências experimentais: existem numerosos estudos celulares, animais e alguns estudos clínicos investigando metabolismo tumoral, vitaminas, restrição metabólica e medicamentos reposicionados.
Comprovação terapêutica: o protocolo híbrido proposto por Baghli e colaboradores ainda necessita de ensaios clínicos adequados antes que possa ser considerado tratamento comprovado para o câncer. (ISOM)
Essa distinção é essencial.
Conclusão
O estudo do metabolismo do câncer representa uma fronteira fascinante da oncologia.
Mitocôndrias, glicose, glutamina, células-tronco cancerígenas, metabolismo energético e medicamentos reposicionados estão sendo investigados por diferentes grupos científicos.
O protocolo apresentado por Ilyes Baghli e colaboradores acrescenta uma proposta provocadora a essa discussão.
Isso não autoriza abandonar cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou outras terapias oncológicas comprovadas.
Ao contrário: novas estratégias devem ser avaliadas cientificamente para descobrir se poderão, no futuro, complementar e melhorar os tratamentos existentes.
Para pacientes com câncer, qualquer intervenção metabólica, medicamento reposicionado ou uso de altas doses de vitaminas deve ser discutido com a equipe médica responsável, pois podem existir contraindicações e interações com o tratamento oncológico.
A história da medicina mostra que novas ideias merecem ser investigadas.
Mas mostra também que, principalmente diante de uma doença tão grave quanto o câncer, a diferença entre uma hipótese promissora e um tratamento comprovado deve permanecer muito clara.
Referências principais
BAGHLI, I. et al. Targeting the Mitochondrial-Stem Cell Connection in Cancer Treatment: A Hybrid Orthomolecular Protocol. Journal of Orthomolecular Medicine, v. 39, n. 3, 2024. (ISOM)
MARTINEZ, P.; BAGHLI, I.; GOURJON, G.; SEYFRIED, T. N. Mitochondrial–Stem Cell Connection: Providing Additional Explanations for Understanding Cancer. Metabolites, v. 14, n. 4, 229, 2024. DOI: 10.3390/metabo14040229. (MDPI)
MAKIS, W.; BAGHLI, I.; MARTINEZ, P. Fenbendazole as an Anticancer Agent? A Case Series of Self-Administration in Three Patients. Case Reports in Oncology, 2025. Artigo posteriormente retratado em 2026. (PubMed)
Aviso: Este artigo possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação médica e não deve ser utilizado para substituir diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais habilitados.
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